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Sou Normal Sim

Quando saí do banho e me vesti eu não tinha a mínima ideia de tudo que iria estar acontecendo agora. Mas para você conseguir entender toda a história teremos que voltar um pouco no tempo. Para entender mesmo, teríamos que voltar à minha infância, quiçá ao meu nascimento, pois foram todos os pequenos detalhes da minha decepcionante vida que me levou a tomar as decisões do fato que prestes estou a te contar. Desde que possuo minha primeira memória, já sabia que um dia essa decisão deveria ser tomada. Aos meus seis anos empurrei meu primo mais próximo (Alves era como o chamava por não possuirmos o mesmo sobrenome e esse ser o da família de seu pai) de uma janela que dava saída para a Avenida dos Agricultores, aqui na minha cidade. Depois desse evento, que eu classifico como um acidente, todos da família decidiram interromper qualquer tipo de relação comigo. A próxima vez que eu iria receber uma palavra a mim direcionada de meus avós foi três meses depois, no enterro da minha mãe. Desde então tomar decisões foi um dos meus maiores desafios. A dúvida constante veio como brinde de todo esse distúrbio psicológico que sucedeu os fatos citados. Quando completei meus dezesseis anos consegui tirar minha carteira de habilitação, o que surpreendeu meu terapeuta, que sempre me disse pra manter minhas expectativas baixas, pois não me achava muito bom em atividades que exigiria concentração. Nunca entendi o porquê , já que me considero uma pessoa muito focada, exceto quando vejo uma borboleta. Eu amo borboletas. As monarcas são minhas favoritas, por serem também da minha cor favorita. Mas enfim, após alguns anos de habilitado, respondendo a três processos judiciais por atropelamento intencional - essas acusações, inclusive, são absurdas pois não tem porque eu querer atropelar a mesma pessoa três vezes - consegui realizar uma roadtrip onde, por toda costa de Los Angeles, colecionei pessoas e memórias que levarei pra toda minha vida. Sempre tive a ajuda de algumas pessoas. Agnes, menina que conheci em uma roda gigante no pier de Santa Mônica, escolheu pra mim um hambúrguer de picanha com queijo brie enquanto estávamos saindo do parque. Um garoto dinamarquês que estava fazendo intercâmbio me ajudou a escolher entre os sabores de melancia e morango da minha raspadinha. Mas preciso ter em mente que nem sempre terei alguém pra me ajudar a tomar minhas decisões, ou pelo menos é o que meu pai me diz. Falando nele, não sei porque ele sempre teve tanto medo de me deixar sair sozinho. Eu não sou um bebê ou uma xícara de porcelana da Rainha Vitoria. Eu consigo me cuidar sozinho e resolver meus próprios problemas.
Depois de tudo que eu te contei, Melissa, você acha que eu devo escolher qual sabor de pizza?

João Vitor Gonçalves

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