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Inconsciente

Era tarde de uma terça feira monótona. Geralmente não saio de casa após as seis mas nesse dia algo me instigou a deixar minha cama e desbravar a noite fria e úmida de julho. O cheiro de flores dominava a rua em que ficava a pousada onde estava hospedado. Continuei andando em direção ao ponto boêmio da cidade sem saber muito bem o porquê. Ouvi uma banda que estava tocando minha música preferida da Tommy Tutane e tentei entrar no bar onde eles estavam mas fui barrado pela idade. Sabia que nenhum bar me deixaria entrar, mesmo faltando apenas cinco horas pra completar os tão esperados dezoito anos. Fiquei na porta do bar, sentado na calçada, cantarolando a música até acabar. Pensei em retornar para a pousada e dormir um sono profundo e induzido mas lembrei que a única condição dos meus pais terem deixado eu viajar sozinho era me divertir e não ficar o dia inteiro na biblioteca estadual (que fiz questão de ser a duas quadras de distância da pousada). Então continuei andando pelas ruas com nomes engraçados. Fiquei me perguntando se Agustín Eyzaguirre demorou pra aprender a escrever seu nome. Enquanto ria e questionava a origem do nome da rua onde estava, senti um cheiro que já não era de flores. Consegui sentir o gosto do caramelo salgado que tomava meu olfato e decidi procurar de onde vinha esse odor encantador. Quando entrei na loja de doces Guava Del Amor reconheci o cheiro oculto que procurava. Pedi um mil folhas de caramelo salgado com kiwano e aguardei em uma mesa onde podia ver o cozinheiro fazendo movimentos tão sutis e ensaiados que poderiam fazer parte de uma apresentação de balé clássico. Enquanto aguardava, avistei uma menina de olhos castanhos no fundo da loja. Ela usava um vestido laranja e uma blusa de manga longa azul turquesa que, por mais exótico que pareça,  combinou perfeitamente com o restante da vestimenta. Não sabia quem ela era, mas fiquei a observando ler durante todo o período de espera. Imaginei se estava lendo Stephen King ou J.K. Rowling, mas quando reconheci a capa imponente de Baudelaire, me interessei ainda mais por essa garota que mal sabia o nome. Terminei de comer meu mil folhas e, ainda com o gosto do kiwano no paladar, resolvi me aproximar dela. Com timidez de ambos os lados, a conversa durou por horas. Descobrimos vários âmbito comuns e nos interessamos um pelo outro. Passamos a noite juntos, conversando, rindo, andando, parados. Fomos para uma clareira secreta que ela me apresentou. Nos aproximamos cada vez mais até ficarmos tão próximos que já éramos apenas um. Nosso lábios nos aproximaram. Conseguia sentir a respiração dela em meu rosto. Não sabia se teria uma situação melhor para um primeiro beijo. E quando tudo estava prestes a acontecer, acordei.
João Vitor Gonçalves 

Comentários

  1. Amei a crônica João! <3
    Inclusive agora quero um vestido laranja e uma blusa de manga longa azul pra combinar! hahaha.
    Beijos e fique com Deus!

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    Respostas
    1. Olá Stefany!
      Obrigado ^^ Acho que vai ficar lindo haha Quero foto e resenha no blog
      Abraço, fique com Deus ♡

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